por Adriana Russo e ROberto Trindade
Todos nós vivemos situações estressantes rotineiramente e os fatores desencadeantes do stress podem aparecer em qualquer momento de nossas vidas. Infelizmente o senso comum distorceu o termo apresentando - o de forma parcial, com ênfase em seu aspecto negativo mas, de uma maneira geral, não somos vítimas indefesas do stress. Vale lembrar que ninguém adoece unicamente em função da existência de elementos nocivos no ambiente, mas sim pelo fato de ser ou tornar-se sensível à ação desses agentes.
As equipes de atendimento de emergência enfrentam situações muito específicas e são particularmente vulneráveis já que em seu cotidiano convivem com o contínuo sofrimento humano na luta contra o tempo para salvar vidas e em condições e ambientes adversos.
Assim sendo o stress é considerado um dos riscos ocupacionais mais graves para essas equipes, porque afeta a saúde física e mental do sujeito, seu desempenho no trabalho assim como sua vida pessoal e familiar.
O termo stress significa tensão, esforço, desgaste. Provém da Física e nesta área do conhecimento humano significa o grau de deformidade que uma estrutura sofre quando é submetida a um esforço.
O Dr. Hans Selye, da Universidade de Montreal, utilizou este termo na década de 50 para denominar o “conjunto de reações que um organismo desenvolve ao ser submetido a uma situação que exige esforços para adaptação.”
Se a resposta adaptativa for inadequada ou negativa temos o distress. Por outro lado, se o indivíduo reagir bem à demanda, de forma positiva, aparece o eustress.
Reforçamos a idéia de que o stress por si só não é suficiente para desencadear uma enfermidade ou provocar uma disfunção orgânica. Para que tal ocorra é necessário que outras condições sejam satisfeitas, como uma vulnerabilidade orgânica associada ou uma forma inadequada de avaliar e enfrentar a situação. Podemos compreender assim que o stress define-se como uma relação particular entre a pessoa, seu ambiente e as circunstâncias com as quais está envolvida, avaliadas como ameaça e que põe em risco seu bem-estar.
Selye deu ao stress o nome de Síndrome Geral de Adaptação (SGA). Dividiu a SGA em três fases, a saber:

As reações de stress resultam de um esforço para a adaptação. No entanto, se a reação ao agente estressor for muito intensa, potente e/ou prolongada , poderá haver como conseqüência, doença ou maior predisposição ao desenvolvimento de doença. Lembremos que situações extremas de stress representam ameaça de dano psíquico podendo causar esgotamento e falhas no sistema defensivo do indivíduo.
Na década de 70 estudiosos do fenômeno do stress definiram a Síndrome de Burnout (SB),que literalmente significa “queimar-se”. É sabido que a SB se manifesta com maior freqüência entre profissionais que trabalham no cuidado de outros seres humanos, atendendo suas necessidades.
Se por um lado o paciente está em sofrimento e necessita de ajuda, por outro os profissionais devem prestar atendimento com competência técnica, de forma eficaz e eficiente, muitas vezes com limites de tempo que podem determinar vida ou morte. Conclui-se que estas situações podem criar uma condição de fragilidade ao psiquismo do profissional.
Lidar com o sofrimento alheio exige uma alta dose de empatia, altruísmo, motivação e dedicação. Porém é o excesso destas mesmas características que pode tornar–se prejudicial à saúde do cuidador. A empatia em demasia pode levar o profissional a uma identificação com o paciente, causando um envolvimento profundo na situação, prejudicial ao atendimento.
Profissionais que se lançam de forma desmedida no trabalho, que não saber dizer não, que desempenham diversas tarefas ao mesmo tempo, que idealizam o trabalho com grandes expectativas e que colocam o trabalho como principal forma de satisfação pessoal tendem a desenvolver os sintomas da SB.
Então, uma série de manifestações ocorre: o desempenho cai, os sentimentos de insatisfação e incompetência aparecem, o nível de realização pessoal e a auto-estima rebaixam - se e o profissional aproxima-se do esgotamento emocional. Já não é capaz de dar conta de si, torna-se impaciente, agressivo, com baixa tolerância à frustração e a despersonalização, que se traduz por um endurecimento afetivo, uma tendência de ver o paciente como um ser destituído de qualidades humanas, tratando-os como objetos, com cinismo, desrespeito ou culpando-os por sua própria condição.
Além dos fatores pessoais que contribuem para o desenvolvimento da SB, há importantes fatores interpessoais e organizacionais que também interferem, como por exemplo: ambientes de trabalho onde o profissional não é reconhecido, profissionais sobrecarregados, relações interpessoais tensas e conflituosas, falta de recursos materiais e humanos, entre outros.
A SB é uma resposta ao distress, como uma tentativa inconsciente do psiquismo livrar-se da sobrecarga. Não tratado pode trazer uma série de conseqüências legais, relacionais e psicossomáticas, com o aparecimento de doenças orgânicas como enxaqueca, problemas cardiovasculares e respiratórios, distúrbios do sono, úlceras, alergias, além do alcoolismo, do abuso de fármacos e de drogas ilícitas.
O primeiro passo para evitar essa situação é saber reconhece la. O conhecimento teórico sobre a SB combinado com a auto-observação constante torna-se o principal fator para que o profissional busque ajuda psicoterapêutica tão logo comece a notar em si mesmo fatores que possam vir a ser prejudiciais.
Tais iniciativas irão contribuir não só para um melhor rendimento e aproveitamento de cada profissional que cuida de outros seres humanos, elevando a qualidade do serviço, mas também para a manutenção de sua saúde física e psíquica, que , afinal, é o bem mais importante de qualquer organização.